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22 de Setembro de 2018

Saiba o que os internautas andam pesquisando sobre a advocacia

Andressa Vieira Popinigis, Advogado
há 5 meses

1 INTRODUÇÃO

O Google Search, um dos primeiros serviços lançados pela empresa Google, está entre os mecanismos de pesquisa mais utilizados do mundo, sendo inegável sua eficiência: digitamos uma expressão, termo ou frase e, em frações de segundo, temos milhares de páginas ordenadas por relevância à nossa disposição para encontrarmos o que buscamos, sem pagarmos (diretamente) nada.

Nos dias atuais, tal ferramenta tomou proporções gigantescas, indo muito além de um simples serviço de busca por termos em páginas indexadas. A funcionalidade realiza diversas ações, como: a atualização diária da base de informações com a ajuda de um “robô”; a classificação de relevância das páginas de acordo com a quantidade e qualidade das ligações (externas ou internas) que apontem para ela; o armazenamento de quase todas as páginas rastreadas no Google, possibilitando sua consulta a qualquer momento (mesmo se a página não existir mais) etc.

Tendo em vista esta amplitude, vale a pena explorar melhor a potencialidade desse mecanismo. Com isso, nossa intenção é fazer um breve exercício sobre como a ferramenta pode ser utilizada a favor de prestadores de serviço a fim de melhor entender o que o usuário – e potencial cliente – está pesquisando.

2 BUSCAS RELACIONADAS À ADVOCACIA

Em 24 de abril de 2018, por intermédio do Google Search e Google Trends, foi empregada uma metodologia muito simples e rápida para se ter uma noção genérica do que as pessoas estão pesquisando na Internet. Foram quatro levantamentos envolvendo a advocacia, detalhados na sequência.

2.1 Primeiro levantamento

O primeiro levantamento é o mais simples e genérico de todos: acessou-se a página inicial do Google e digitou-se a palavra “advogado” seguida de um espaço. Surgiu uma lista das expressões mais procuradas iniciadas por “advogado”, conforme ilustrado a seguir.

 FIGURA 1 - Expressões mais procuradas iniciadas por  “advogado” no Google Search

 Fonte: Google Search Brasil, acessado em 24/04/2018.

Desconsiderando os nomes de filmes e músicas, já foi possível relacionar o volume de pesquisas – e não o número de pessoas – iniciadas com o termo “advogado” a três situações:

  • Alto interesse por advogados online, ou seja, imagina-se que se procura pelo menos um primeiro contato de forma virtual;

  • Alto interesse em conhecer o advogado do ex-presidente Lula, possivelmente em razão da forte repercussão midiática e divulgação ocorrida em seu julgamento nos últimos meses;

  • Alto interesse por serviços advocatícios nas áreas de Direito do Trabalho e Direito Criminal.

Apesar da pequena defasagem temporal entre os dados do relatório Justiça em Números 2017: ano-base 2016 e o atual levantamento, é possível se constatar uma aproximação sutil com a realidade da Justiça brasileira. Neste relatório, verificou-se que a Justiça do Trabalho possuía o maior quantitativo de casos novos do Judiciário. Por seu turno, a Justiça Estadual tinha entre os assuntos mais numerosos ramos do Direito Civil, Penal e Tributário.

(...) a Justiça Estadual, com aproximadamente 67% do total de processos ingressados no Poder Judiciário, reúne grande diversificação de assuntos. O tema Direito Civil aparece entre os cinco assuntos com maiores quantitativos de processos em todas as instâncias da Justiça Estadual, destacando-se, também, o elevado número de processos de Direito Penal no 2º grau, de Direito Tributário na justiça comum (...). Na Justiça do Trabalho, com 15% do total de processos ingressados, há uma concentração no assunto “verbas rescisórias de rescisão do contrato de trabalho” – o maior quantitativo de casos novos do Poder Judiciário (Brasil, 2017, p. 166).

Assim, apesar de diversos outros fatores influenciarem as buscas, percebe-se que o volume de pesquisa do Google apresenta uma coerência com as informações oficiais do país.

2.2 Segundo levantamento

Mantendo o mesmo método, a fim de validar ou aprimorar o levantamento anterior, iniciou-se uma frase por “telefone de advogado” e, novamente, foi acrescentado um espaço ao final. As áreas que predominaram anteriormente voltaram a aparecer, sendo acrescentadas outras duas: Civil e Previdenciário.

 FIGURA 2 - Expressões mais procuradas iniciadas por “telefone  de advogado” no Google Search

 Fonte: Google Search Brasil, acessado em 24/04/2018.

Nota-se que são ramos próximos ao cotidiano da maioria da população: diariamente, estamos inseridos no contexto do Direito Civil e, grande parte da massa populacional, em determinado momento, terá contato com a Previdência.

Segue uma representação gráfica extraída do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) demonstrando, no ano de 2016, em todos os tribunais, os novos assuntos que tiveram destaque, ficando entre os melhores colocados: o Direito do Trabalho (tema encontrado no primeiro levantamento) e o Direito Civil (tema encontrado no segundo levantamento).

 GRÁFICO 1 - Quantitativo por assuntos referentes a casos novos  no Poder Judiciário (2016)

  Fonte: CNJ (paineis), disponível em:    <https://paineis.cnj.jus.br/QvAJAXZfc/opendoc.htm?document=qvw_l%5Cpainelcnj.qvw&host=QVS%40neodimio03&anonymous=true>.

Apesar de, em 2016, o Direito Previdenciário não possuir uma boa classificação frente aos estudos do CNJ, vários fatores podem explicar uma possível ascensão do assunto nos tempos atuais (como a recente polêmica da reforma previdenciária). Entre eles, destaca-se a alta projeção internacional do crescimento de pessoas de 60 anos ou mais (idade a partir da qual se tornam idosas no Brasil – art. do Estatuto do Idoso –, podendo-se inferir uma alta tendência de adesão ao sistema previdenciário).

Em uma perspectiva internacional, ao se analisar[em] dados das projeções populacionais feitas pelas Nações Unidas (WORLD..., 2015) (Gráfico 1.2), o crescimento esperado da proporção de pessoas de 60 anos ou mais de idade na população brasileira seria marcante nas próximas décadas. Entre 1950 e 2000 a proporção de idosos na população brasileira, que esteve abaixo de 10,0%, foi semelhante à encontrada nos países menos desenvolvidos. A partir de 2010, o indicador para o Brasil começa a se descolar destas regiões, aproximando-se do projetado em países desenvolvidos. Em 2070, a estimativa é que a proporção da população idosa brasileira (acima de 35,0%) seria, inclusive, superior ao indicador para o conjunto dos países desenvolvidos (Gráfico 1.2) (IBGE, 2016b, p. 14).

A aparição, em segundo lugar, do termo “gratuito” será brevemente mencionada na próxima seção.

2.3 Terceiro levantamento

Seguindo a mesma metodologia e com o objetivo de conhecer melhor as pesquisas relacionadas à advocacia levantadas nas seções anteriores, iniciou-se uma frase com “preciso de advogado” e, novamente, foi acrescentado um espaço ao final. Os temas do direito pesquisados ficaram mais detalhados: divórcio, audiência de conciliação, aposentadoria, inventário, ação trabalhista, mandado de segurança, rescisão indireta.

 FIGURA 3 - Expressões mais procuradas iniciadas por “preciso   de advogado” no Google Search

 Fonte: Google Search Brasil, acessado em 24/04/2018.

Utilizando-se esse início de frase, o volume de pesquisas se voltou, novamente, para áreas de Direito Civil (com ênfase em família e sucessões), Previdenciário e Trabalhista. Os conceitos de mandado de segurança e audiência de conciliação foram desconsiderados, haja vista serem muito genéricos para enquadramento em um ramo de conhecimento definido.

O primeiro item da lista já era esperado: de acordo com informativo intitulado Estatísticas do Registro Civil 2016 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, ao passo que o número de casamentos sofreu redução de 3,7% entre 2015 e 2016, o número de divórcio aumentou – tendência que deve ser mantida para os anos que sucederam.

Em 2016, a pesquisa Estatísticas do Registro Civil apurou 344 526 divórcios concedidos em 1ª instância ou por escrituras extrajudiciais. Houve um aumento no número de divórcios contabilizados pela pesquisa em relação a 2015 quando o total de divórcios concedidos em 1ª instância ou por escrituras extrajudiciais foi de 328 960. Verificou-se acréscimo na taxa geral de divórcio que passou de 2,33‰ (2015) para 2,38‰ (2016). A Região Sudeste apresentou a maior taxa geral de divórcio (2,69‰) (IBGE, 2016a, p. 5).

A surpresa (ou talvez nem tanta) é aparecer, pela segunda vez em dois levantamentos distintos, no topo da lista, a procura por “advogado gratuito”. É perfeitamente compreensível que muitas família não podem sacrificar o seu sustento para arcar com um advogado, por essas razões existem serviços gratuitos voltados a esses casos.

Entretanto, fica impossível vislumbrar que o volume de buscas capaz de colocar a gratuidade do advogado apenas atrás do divórcio seja completamente formado por pessoas sem recursos suficientes. Parece haver um problema de percepção social sobre o valor e a importância dos serviços advocatícios.

2.4 Quarto levantamento

A última fase foi reunir os termos obtidos até o momento, torná-los mais abrangentes sem nos afastarmos muito da nomenclatura jurídica, para então compará-los entre si no Google Trends (função “explorar”).

De acordo com o próprio Google, os números representam o interesse de pesquisa relativo ao ponto mais alto no gráfico de uma determinada região (Brasil) em um dado período (os últimos 12 meses). O valor de 100 representa o pico de popularidade de um termo. O de 50 significa que o termo teve metade da popularidade. A pontuação 0 significa que não havia dados suficientes sobre o termo.

 GRÁFICO 2 - Interesse de pesquisa no Google pelos termos  “divórcio”, “aposentadoria”, “inventário”, “trabalhista” e  “criminal” no Brasil (abr. 2017 a abr. 2018)

 Fonte: Google Trends Brasil, acessado em 24/04/2018. Disponível em: <https://trends.google.com.br/trends/explore? geo=BR&q=div%C3%B3rcio,aposentadoria,invent%C3%A1rio,trabalhista,criminal>.

O termo “trabalhista” esteve à frente dos outros quatro em todo o período analisado. Os picos podem ser explicados pela alta popularidade do assunto em razão das reformas trabalhistas que se iniciaram em meados de 2017.

As palavras “aposentadoria” e “criminal” revelaram praticamente o mesmo interesse dos internautas brasileiros ao longo de todo o período analisado, enquadrando-se entre 25 e 12 pontos. Detalha-se que ocorreu preferência pelo vocábulo “aposentadoria” em detrimento de “previdenciário”, tendo em vista que o primeiro surge mais vezes por ser uma palavra mais simples e clara para o cotidiano dos navegantes.

Por fim, as palavras “inventário” e “divórcio” ficaram com a pontuação mais baixa em comparação com as demais, aproximando-se no ranking do nível 0 – nota-se que isso não significa que, individualmente, o volume de pesquisa desses termos seja baixo.

3 CONCLUSÃO

Em definitivo, os resultados dos levantamentos não significam que as áreas mais pesquisadas pelos usuários representam os ramos de atuação com maiores chances de sucesso, nem mesmo que os nichos mais especializados estão em baixa no mercado. Na verdade, temos tão somente um indicativo de volume de pesquisa na Internet (por meio do Google) que revela um interesse maior ou menor do usuário, informação que pode ser utilizada como uma ferramenta profissional.

Alerta-se que não é fácil tirar conclusões verdadeiras desse tipo de levantamento, tendo em vistas que fatores políticos, midiáticos e econômicos influenciam muito as expressões pesquisadas pelos usuários da Internet. Fora isso, os termos da área pesquisada se repetem em outros setores completamente distintos e acabam influenciando os resultados, podendo levar a considerações incorretas.

O exercício empreendido neste artigo foi bem básico e buscou apenas fornecer ao leitor uma noção genérica do que pode ser feito com ferramentas gratuitas e disponíveis na Internet. Acreditamos que muito de vocês já conheciam ou ouviram falar do Google Trends, contudo ainda não tiveram a oportunidade de tentar extrair alguma informação útil para o seu diaadia.

Essa metodologia básica pode ser utilizada para negócios, estudos, criação de novo conteúdo, teses, curiosidades, brincadeiras, desenvolvimento de produto e mil e uma outras atividades. Entretanto, deve ser mantida sempre cautela na interpretação de dados, evitando-se falsas conclusões.

Indo muito além deste texto, vale mencionar que hoje em dia existe a profissão de cientista de dados (em alta no mercado), a qual permite, em linhas gerais, que o profissional utilize um conhecimento técnico (matemática, estatística, programação etc.) e o aplique sobre um banco de dados determinado a fim de ser extraído um significado útil permitindo, por exemplo, previsões comportamentais e resoluções de problemas.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Justiça em Números 2017: ano-base 2016. Brasília, 2017. Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/files/conteudo/arquivo/2017/12/b60a659e5d5cb79337945c1dd137496c.pdf>.

GOOGLE. Disponível em <https://www.google.com/>. Acesso em: 24 abr. 2018.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas do registro civil 2016. Estatísticas do Registro Civil, Rio de Janeiro, v. 43, p. 1-8, 2016a. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/135/rc_2016_v43_informativo.pdf>.

______. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira 2016. Rio de Janeiro: IBGE, 2016b. 146 p. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv98965.pdf>.

SANTOS, Ana Cristina. Cientista de dados: a profissão do futuro. set. 2017. Disponível em: <http://www.administradores.com.br/noticias/carreira/cientista-de-dadosaprofissao-do-futuro/121222/>. Acesso em: 24 abr. 2018.

WIKIPÉDIA. Google Search. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Google_Search>. Acesso em: 25 abr. 2018.

8 Comentários

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Parabéns, Andressa, pela elaboração do artigo!
Certamente, muito útil a nós, operadores do Direito.
Seguindo... continuar lendo

Parabéns, muito interessante. continuar lendo

Parabéns pelo artigo, bem elaborado, sucesso! continuar lendo

Excelente trabalho, parabéns!

Vale destacar que os mesmos usuários que buscaram por determinado ramo do direito, podem ter posteriormente ter feito a pesquisa por gratuidade.
De qualquer forma as ressalvas estão muito bem colocadas ao final do artigo.

Ademais, em que pese as ressalvas, o artigo é de grande valia. continuar lendo

Exatamente! Por essas questões é muito complicado de se obter uma conclusão clara sobre o volume de pesquisa. Muito pertinente a sua intervenção! continuar lendo